
Processos e Estratégias de Formação ao Longo da Vida
Atelier 3
Entre Danças contam-se estórias
Introdução
Este trabalho, surge no âmbito do trabalho final da unidade curricular da disciplina "processos e estratégias ao longo da vida". Esta disciplina está inserida no mestrado em Ciências da Educação, especialização em Desenvolvimento Comunitário.
Pretende dar a conhecer o projeto Entre Danças, do Atelier3- Eu, Nós e o Mundo. Neste trabalho conheceremos esta instituição e o seu contexto. Será feita uma articulação com as matérias dadas no desenvolvimento da UC, e ficaremos a compreender como este projeto põe em prática a aprendizagem e formação ao longo da vida. E tem uma breve conclusão reflexiva no final do trabalho.
Capitulo 1.
Apresentação do projeto e do contexto institucional

1.1. Identificação da Instituição/Entidade Promotora/ Executora
O Entre Danças é promovido pelo Atelier 3- Eu, Nós e o Mundo- Associação para o Desenvolvimento Humano em conjunto com uma rede de parceiros co-financiado pelo Portugal 2020, programa AIIA, abordagem integrada para a Inclusão Ativa. O projeto teve duração de dois anos entre março de 2021 e 3 fevereiro de 2023. Esta Associação não tem sede própria, tendo morada fiscal na zona de Sintra, desenvolve as suas práticas em espaços de parceiros. Realiza projetos onde for solicitada a sua presença mediante análise. Mesmo já tendo terminado este projeto encontram-se disponíveis para o reiniciar.
O Atelier 3- Eu, Nós e o Mundo é uma Associação para o Desenvolvimento Humano, que tem a missão de desenvolver, promover e dinamizar programas e ferramentas para crianças, jovens, adultos e famílias. Este projeto visa a participação e o desenvolvimento dos indivíduos como um fundamento determinante do seu desenvolvimento e por consequência da própria comunidade.

1.2. Campo de Intervenção
O Atelier3 -Eu, Nós e o Mundo, desenvolve projetos de inclusão social.
O Entre Danças é um projeto de educação não formal, sendo este um dos projetos promovidos pelo Atelier3. O projeto propõe-se a promover o desenvolvimento social e comunitário como fortalecimento da sociedade civil. Utilizando Empowerment e a participação como determinantes do desenvolvimento social e comunitário.
O objetivo primordial do Entre Danças consistiu em desenvolver um programa de educação não formal na área da dança articulando com a metodologia do storytelling, e foi dirigido particularmente a jovens em situação de vulnerabilidade social no concelho de Sintra. Este projeto pretendia também promover uma rede de inclusão social para jovens com deficiência, constituída por jovens agentes educativos, cuidadores e famílias, com ações coesas, integradas e sustentáveis.

1.3. População e Recursos Humanos (pessoas envolvidas)
Para a implementação este projeto contou com o trabalho de um conjunto de facilitadores multidisciplinar com experiência na área.
Num contexto multidisciplinar constituído por: uma psicóloga, uma gestora de projeto, uma psicopedagoga, duas bailarinas, uma atriz, uma empreendedora sócio ambiental, uma ilustradora, uma consultora de desenvolvimento organizacional, um design maker, uma investigadora social. Mas este projeto só suporta o pagamento integral dos ordenados de duas pessoas, gestora de projeto e de uma bailarina, as restantes pessoas estão no projeto como prestadoras de serviços e voluntários.
A implementação do projeto conta com uma rede de parcerias, a associação Pais em rede-Sintra, o CECD, a CERCITOP; a Jangada D`Emoções e a Fundação Aga Khan.
O público alvo são crianças, jovens, adultos, famílias, professores e técnicos.

1.4. Objetivos do projeto
Os objetivos do projeto são capacitar jovens participantes para serem agentes multiplicadores, no sentido de criarem e promoverem oportunidades e ferramentas de inclusão social para outros jovens no contexto da sua comunidade; capacitar agentes educativos locais e capacitar cuidadores e famílias, residentes no concelho de Sintra.
1.5. Breve descrição das atividades realizadas
É um projeto que convida jovens com deficiência e/ ou em situação de vulnerabilidade social, dos 16 aos 25 anos, a contarem a sua história através da dança, colaborando com a metodologia de storytelling, permitindo criar, num processo expressivo e de criação artística, a exploração de emoções e sentidos na visão da vida de cada um dos jovens residentes do concelho de Sintra, das freguesias de Algueirão Mem-Martins, Belas e Queluz.
O projeto apresenta como principal finalidade competências promotoras de inclusão social e de democratização da arte.
O Ateliêr3 promoveu o projeto Entre Danças Contam-se Estórias no conselho de Sintra, mas também "o" promoveu em outros locais como: Colégio Pedro Arrupe em Lisboa; Escola Marquesa de Alorna em Lisboa; will-Creativ Consulting; SONAE; Winworld; FamilY Story Box; onde foram realizados projetos, workshops para agentes educativos e também mostrar ao publico os resultados do projeto Entre Danças em espetáculos finais abertos a toda a comunidade.
Na realização do projeto, as ações foram variadas até ao resultado final da apresentação das danças ao público.
As partilhas dos jovens e crianças com e sem deficiência, quando contam as suas estórias de vida, dificuldades e sentimentos por exemplo,…permitem o início e a base da construção artística e a construção do desenvolvimento preformativo. Estas partilhas são realizadas em momentos de partilha provocados e dinamizados pelos mediadores. Para o efeito existe acompanhamento e monitorização dos jovens.
Os participantes co-constroem em sessões mensais para as apresentações finais desses encontros.
Os participantes são desafiados a mostrarem os seus talentos, a espicaçarem a sua criatividade. Olham atentamente o que os rodeia e transformam o usual em belo. Seja um espaço ou um objeto querem saber a sua história e imaginar o seu futuro. Criam um projeto, experimentam,... O trabalho em conjunto e o potencial de cada um e de todos dá a confiança para assumirem o erro como parte do processo.
As partilhas realizadas entre os participantes deram origem a uma "carta de princípios e valores", que estabeleceu linhas orientadoras e éticas escritas pelos jovens técnicos e família que foi feita ao longo do projeto, que está disponível para consulta, ver botão abaixo.
Esta distingue-se por ter sido construída também pelas crianças e jovens, tornou-se uma ferramenta essencial e onde todos podiam acrescentar a sua opinião.
Capítulo 2.
O projeto na operacionalização dos conceitos de desenvolvimento ao longo da vida



Há o pressuposto que os indivíduos de uma comunidade, têm no seu íntimo a capacidade de perceberem quais são as necessidades prementes, as propostas de resolução para os problemas, no sentido destes indivíduos terem o discernimento de qualificarem sobre o presente e anteciparem o futuro.
"Transformar a apatia em criatividade, a intolerância em empatia, o individualismo em solidariedade, a desigualdade em justiça social, o desrespeito pela natureza na sua valorização, o passado e o futuro no presente vivido e respeitador do eu, do nós, do mundo." (Atelier Três, 2020).
"... respeitador do eu, do nós, do mundo." (Atelier Três, 2020).
Os processos de educação são realizados com a metodologia de storytelling.
O storytelling é a arte de contar histórias individuais ou entre pares, que ajuda o(s) indivíduo(s) a porem-se numa perspetiva de protagonista, acolhendo assim a diversidade humana, encontrando o outro e entendendo-o melhor. Tem como objetivos: a valorização pessoal, desenvolvendo a autoestima e a autoconfiança, a auto reflexão, a coragem, a escuta ativa, o sentido de comunidade, o respeito pelo outro, a comunicação e a empatia. Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tão pouco a sociedade muda." (Paulo Freire, 2000).
A metodologia Ubuntu é também utilizada nas abordagens realizadas com os participantes.
"Ubuntu é uma maneira de estar na vida. É uma palavra que condensa a verdadeira essência do que é ser Humano." (Desmond Tutu, 2011).
E todas as abordagens educativas são feitas em grupo, mas considerando cada participante individualmente.
"O ensino deve, também, ser personalizado: esforçar-se por valorizar a originalidade, apresentando opções de iniciação às diversas disciplinas, atividades ou artes, confiando esta iniciação a especialistas, que possam comunicar aos jovens o seu entusiasmo e explicar-lhes as suas próprias opções de vida." (Jacques Delors, 1996, p. 57)
A equipa do projeto entre danças fala-nos de como realizaram este projeto e dos conceitos de desenvolvimento ao longo da vida

Não queremos reduzir o saber a um saber, a cultura a uma cultura, a história a uma história, o ser humano a uma definição de ser. Vamos pelo caminho oposto, vamos pela Carta da Transdisciplinaridade.
A educação é bússola, disse-nos Jacques Delors, e esta tem o potencial de nos permitir navegar nesse mundo cada vez mais interligado, de problemas cada vez mais complexos.

A consciência crítica em relação à realidade é o que pensamos ser o motor da transformação social. Reconhecer-se para conhecer o mundo e depois transformá-lo foi o que Paulo Freire nos ensinou.
A transformação social sem educação não se faz, escreveu tantas vezes.

UBUNTU, conceito africano, que significa "Eu sou porque tu és", lembra-nos que estamos interligados, perto ou longe, fazemos parte de um todo que desejamos harmonioso, justo, de cuidado e de dignidade.

Acreditamos numa aprendizagem feita através da experiência, ao fazer escolhas, ao decidir e errar, ao voltar a tentar, tal como Ken Robbinson acredita.

A educação é bússola.
Eu, Nós e o Mundo. Na educação, pela transformação.

Aprender sem tédio ou tensão, pela observação, pela exploração que materializa as qualidades abstratas do mundo, pela curiosidade, é como trabalharmos, inspirados na pedagogia desenvolvida por Maria Montessori.
Capítulo 3. O projeto como prática de processos de aprendizagem e formação ao longo da vida
Neste projeto, Entre Danças, través da arte de contar estórias convidam os participantes a contar e a escutar os seus pares. Quem conta e escreve a sua história é protagonista, dá sentido à sua vida, aceita-se, conhece-se e liberta-se. Quem ouve e vê a história de outros acolhe a diversidade da vivência humana, encontra o outro e entende-o melhor. Os participantes neste projeto aprendem a ser quem são em relação ao outro e ao mundo. É um processo intenso que permite desenvolver a autoestima, a autoconfiança, a empatia e a solidariedade através da reflexão de si e da reflexão do outro.
As atividades têm por base a Educação Não Formal e a aprendizagem entre pares, em contexto de diversidade, a partir das experiências específicas de cada participante.
Terem a possibilidade de conhecer o mundo através de experiências variadas, permite que enriqueçam o "eu" e possibilitem a concretização de escolhas mais autónomas.
O Storytelling é uma técnica utilizada neste projeto, conta as estórias de forma envolvente e estruturada, com o objetivo de transmitir uma mensagem ao público e aos participantes para conectar as pessoas em experiências emocionalmente relevantes.
Ao longo do processo de construção da apresentação final ao público, o storytelling é também uma técnica utilizada com as crianças e jovens. Proporciona-lhes: valorização pessoal, autoreflexão, coragem, escuta ativa, sentido de comunidade, respeito pelo outro, comunicação e empatia. Este projeto também incentiva a criatividade e com ela: potencia a curiosidade, o trabalho em equipa, a aceitação do erro, a improvisação, a imaginação, a experimentação, o pensamento critico, a participação no projeto proporciona conhecimento do mundo e promove por todos estes motivos a cidadania ativa. Sendo estas ferramentas potenciadoras para a aprendizagem e formação ao longo da vida de todos os agentes participantes envolvidos.
"De acordo com o instituto de aprendizagem ao longo da vida da UNESCO, a aprendizagem é um conceito que abrange todos os tipos de aprendizagem: formal não formal e informal que ocorre ao longo da vida de uma pessoa."
Neste projeto é desenvolvido um conjunto de aptidões e competências que se realizam fora do âmbito da educação formal, onde é promovido o desenvolvimento pessoal e social. Onde foram adotadas estratégias que garantem processos de aprendizagem acessíveis e inclusivos através da arte. Contribui assim para uma sociedade mais justa onde todos os envolvidos tem oportunidade de crescimento e participação.
Conclusão
O Entre Danças foi um projeto que muito se dedicou a inclusão social no concelho de Sintra, tendo este terminado em 2023 por falta de financiamento.
Conforme foi dito no decorrer do trabalho este projeto foi um programa de educação não formal, que se destina a toda a comunidade, mas era desenvolvido por jovens com e sem deficiência.
A Arte e a dança uniam as pessoas em "diálogos" públicos, onde eram representadas as estórias de vida partilhadas pelos jovens, pretendendo re-significar sentimentos e incluir pessoas.
Sendo os jovens os protagonistas em momentos verdadeiramente significativos e modificadores que seriam apresentados ao público proporcionando a perceção da comunidade tornando-a mais inclusiva e reflexiva.
Onde as crianças, jovens, agentes educativos, cuidadores, famílias e sua comunidade eram influenciadas pelas várias ações realizadas e integradas neste projeto tornando-se assim um projeto sustentável de aprendizagem ao longo da vida.
Este projeto dá-nos a conhecer um exemplo de uma equipa multidisciplinar e sua importância, mas também a precariedade do trabalho na área social, sendo um exemplo de que por falta de financiamento foi obrigado a parar.
Sendo este um projeto onde as crianças e jovens têm voz, onde tanto dinheiro e dedicação foi investido, nomeadamente na realização de redes de trabalho que promovem a inclusão, como podem ser permitidas a extinção destes projetos cujos impactos só poderão ser mensorados com o tempo onde a situação que se propõe a resolver está em constante mutação, como é que um projeto destes não é inserido nos serviços e instituições públicas ou privadas já existentes!?
O limite do tempo de intervenção condiciona os processos. Podemos falar de autonomização e resolução de problemas em ano e meio de intervenção? Podemos. Mas põe-se no expoente máximo todo o trabalho que pode ser feito? O tempo para que os processos existam são dados? Ou andamos todos a trabalhar para gastar recursos sem potenciar os resultados?
Com este trabalho aprendi um novo olhar, comovi-me e cresci. Na certeza que poderei com ferramentas dadas por este projeto fazer uma nova e diversificada intervenção onde o ser HUMANO e as suas estórias são o motor da aprendizagem ao longo da vida.

Bibliografia
Atelier Três - Eu, Nós e o Mundo (2022). Apresentação Entre Danças. https://mail.google.com/mail/u/0/?tab=rm&ogbl#inbox/QgrcJHrhwMCmThbMQhGzdWQhMbRzljwpLGq?projector=1&messagePartId=0.4
Bento, Avelino, "Teatro e Animação – Outros percursos de desenvolvimento sociocultural no Alto Alentejo", Lisboa, Edições Colibri, 2003, (p.120-12)
Câmara Municipal de Sintra (2023). https://cm-sintra.pt/
Entre Danças, Contam-se Estórias (2021). Relatório de avaliação externa intercalar. https://mail.google.com/mail/u/0/?tab=rm&ogbl#inbox/QgrcJHrhwMCmThbMQhGzdWQhMbRzljwpLGq?projector=1&messagePartId=0.2
Vernon, M. D. (1973). Motivação humana. Tradução de L. C. Lucchetti. Petrópolis: Vozes. (trabalho original publicado em 1969).
Vasconcelos A.(2017). O cérbro Social: compreendendo o Cérebro como um órgão Social
Sousa (2025)
https://ead.ipleiria.pt/2024-25/mod/folder/view.php?id=185258